Estava retornando para casa e me veio um estalo, fazendo minha vida toda passar pela cabeça em um segundo. Caracas, eu estou noivo! Não que isso seja uma coisa difícil de aceitar, pois quando a gente pensa na escolhida, tudo fica bem. Mas por um instante, lembrei de como já aproveitei minha vida de solteiro com garotas, festas e muita coisa que não se faz quando assumimos um compromisso sério. Agora, isso foi para espaço. Aquela virilidade adolescente com mil histórias guardadas; aquele tempo de jogar conversa fora com amigos sem ter cobrança; de chegar em casa de manhã escondendo o hálito de cerveja e conversar por vinte minutos com a mãe para provar para ela, que vê a embriaguez nos seus olhos, que não foi afetado pelo álcool; de comentar com os amigos como a colega de trabalho é gostosa...ops. Espera um pouco. Mas não é o fim do mundo, agora eu tenho uma companheira fiel para todas minhas atividades. É o adeus à solidão e o início de uma vida em que o “eu” é plural.
Pode até parecer estranho um noivado assim. Um casal jovem, eu com 22 e ela com 24, com cerca de oito meses de namoro, resolver fortificar os laços com um pedaço de metal nos dedos. Quem não conhece, uma indagação pode vir logo à cabeça: “o cabôco engravidou a menina”. Mas não foi isso. Vários poetas já tentaram decifrar essas coisas que levam a gente a tomar uma atitude dessas. Para mim, isso é apenas amor, correspondido, regado como uma planta frágil que requer a luz do sol e quantidades ideais de água. É uma troca. Um sentimento que é mais forte do que as noções de tempo e espaço ou qualquer romance de novela. Algo que não foi montado, que não foi esperado, mas que simplesmente aconteceu. Resumindo isso, trago as palavras de um senhor que entrevistei outro dia, no gozo de sua intelectualidade de vida: “quando é para ser, meu filho, é”, dizia o cidadão, que mal sabia ler ou escrever, mas que nos seus mais de setenta anos, tinha amado, traído, perdoado, e principalmente vivido.
Falando assim eu até esqueci do terror que é um casamento na cabeça de qualquer homem, principalmente dos que sonharam em ter um harém com mil mulheres. Mas não acho que seja. Deve ser por isso que acredito que ela é a pessoa certa. Me fez pensar em uma vida a dois cheia de luzes e cores, sem as chatices, cobranças desnecessárias.
O engraçado é que eu, no gozo da minha masculinidade de homem de 22 anos, sempre procurava sentido nesse tipo de união. Para mim, se era possível viver como cão vira-lata, malandro, para quê procurar um relacionamento sério? Entretanto, nunca tive vergonha de perguntar a meus amigos mais velhos os motivos que levavam ao casamento. As respostas, parecidas com o discurso do velhinho, eram praticamente as mesmas: “No dia que você encontrar, vai saber”, “Rapaz, não diga que nunca vai casar, pois no dia que encontrar uma mulher ideal, tu vais casar em menos de um mês”.

Normalmente essas conversas sempre terminavam com louvações ao casamento, aliadas às dificuldades de convivência humana, o que é comum em qualquer casa. Não creio que será tão difícil conviver com uma mulher em uma casa. Convivi 22 anos com minha irmã, que sempre tinha ataques de chatice, mas que nunca me levaram ao suicídio. E com uma pessoa que tenho um sentimento em comum, será que vai ser diferente?Só o tempo poderá dizer. Quem sabe, daqui a alguns anos eu poderei estar respondendo as mesmas perguntas de um quase noivo, afirmando que o casamento é a melhor coisa do mundo.